tripartiu-se

 

O sorriso cansado. Descolado para traz. Confortavelmente assentado no fundo falso do pensamento.

Refletia a fina película da porcelana acumulada. Esgar ridículo. Palhaço insonso. Espelho de reflexos tristes.

 

Pois não!

Pois não!

A dissimulada reverência siamesa. Um dia haveria de cair. E.

 

Ao cair do sol

 

Tripartiu-se

 

O corpo lá

A alma ali

E alguns sentimentos espalhados aqui e acolá

 

Outra coisa agora

Arte disforme. Caos de dupla face

Só possível a perceber-se em cacos

Mas... 

Finalmente amanheceu o girassol alegre

Acho que gaiolas todas abertas a sorrir

Pássaros amanhecidos de alegrias cantantes

Em dias assim límpidos de horizontes próximos

 

Um sorriso de vitrais no mosaico

Aprendiz da flor que oferece a face de leste a oeste

 

Creio que fui longe demais

Agora

Só eu sei onde estou

 

Amigos, amados e outros aflitos.

Gritam!

[...] volte!

 

E eu não vou.

 

Coma da MÃE

 

Eu bebi do teu remédio

para ficar doente em tua companhia

Parceiro da tua dor e agonia

Em paracetamol morfina

O acompanhante de quarto

Afinal, o que você tem, porque não volta do sono?

Em vão busquei respostas

No buscopan composto de nada

 

Paulatinamente ficamos flácidos

Sem pernas para visitas

Sem forças para a canja das dezessete

Sem bocas para bolachas água e sal

 

Agulhas invadem nossas veias

Que insistem em fugir do aço

Com líquidos verdes ineficazes

Unindo nosso sangue umbilical

 

Aliviei tua sede com gaze embebida

Beijei o teu olhar, vazio de febres,

Na translúcida distância

Delirante de alegrias e inseguranças

 

Lá fora a vida abraça o sol

Com o seu frêmito inexorável

No festival diário dos pássaros que amanhecem

No riso das buzinas que zombam da minha cara

 

Cá dentro os corredores cheiram a éter

Só rumor por aqui no silêncio hospitalar,

Um só gemido acolá no labirinto das dores eternas

Vozes que clamam nas masmorras gélidas

 

Enfermeira!

Um médico, por favor,

E o pedido desaparece inválido

Na prancheta do medíocre curandeiro

O calor fica por conta dos anjos de branco

Que transitam urgentes, levitantes.

Com a cruz vermelha carimbada nas asas

Um cheiro acre de urina, fezes, vômitos, sangue.

Aguardando pela limpeza anti-séptica

Luvas elásticas, banho de bacias, madres, comadres.

E uma cruel pergunta que paira

 

- moço o que ela tem?

 

Sei lá moça

Aqui nasce a vida

Aqui a morte morre

Pacto transcendental de infinitos mistérios

Aqui o tempo fica do tamanho

De uma invenção qualquer

Cada um com a sua estória

Solitária e sem importância

Registro de um momento único

Marionete, inerte.

E joguete nas mãos do cara

[tenho profundas mágoas deste jogo]

 

Fiz um carinho em sua face inerme

Ausente de sorrisos

Onde você está agora?

No leito do quarto ou em rios de infância

Minha maior ânsia é saber

Houve um tempo para tua felicidade?

 

Canto solitário todas as suas canções

Caço pelas tuas fantasias de senhora

Choro com vontade de ser forte

E, no entanto impotente.

Para entender a tua inércia

Perdoa-me, mãe!

Fui em busca da tão sonhada força

Só para provar que sabia ser seu filho

 

Cenas de cinema em conta gotas lento

Recortes de lembranças em batimento fraco

Durma, eu cuido da tua capelinha.

Dorme, eu cuido da certidão de óbito.

 

Tum...tum...tum...Parou?

 

Descanse em paz...Mãe.

científico fevereiro

 

não fosse a morte

um estranho cheiro de flores

depositada no vaso

dos

pêsames

lágrimas

e

ladainhas

 

seria apenas

 

a incompreensível fumaça seca sem arrepios de um átomo quântico inicial

 

decaindo azul

 

na imensa interrogação do infinito

poema de dezembro

 

acho que andei achando errado

que sou

arquiteturas de idéias sobre idéias

quis até cravar no cerne dos alicerces

um cimento que segurasse os pés ao profundo

uma argamassa que recobrisse as frestas do espanto

 

mas nada me calou a boca

e não cega nunca aos meus olhos flamejantes de vazios

a quebra do padrão

nada parece que suporta ereto por mais de um segundo

sou mais desconstrução

desarquiteto de demolição

e a minha megalópole é essa que voa

 

olha a estação doida no tempo espacial que me vem agora

só sei do aço esse fabricado de imagens em ação

ontem mesmo vi passando pelos céus

bolhas de indagações dos poetas antigos

nada preso a estacas

e fiquei ali ao pé da estrada pedindo carona

quem quiser que embarque comigo

e tente segurar em pés sem rimas

as novas tempestades

poema de outubro

 

não estou

o que me vês

eu não sou

Acabo de receber da Marilena Matiuzzi 

http://mmatiuzzi.zip.net
 o “meme da página 161.

 

Trata-se disso:

 

1. Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);

2. Abrir na página 161;

3. Procurar a 5ª frase completa;

4. Postar essa frase em seu blog;

5. Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;

6. Repassar para outros 5 blogs.

 

Dentre os livros que estão ao meu alcance, escolhi sem olhar: o Livro do Desassossego, do Fernando Pessoa.

 
Eis a frase:


Todas estas coisas não têm importância. São, como tudo no comum da vida, um sono dos mistérios e das ameias, e eu olho, como um arauto chegado, a planície da minha meditação."

 

Passo a bola, então, para:

Márcia Maia
http://www.tabuademares.blogger.com.br/

 

Giovani Pansanato
http://infernoaltoastral.zip.net/

 

Pedro Pan
http://www.porquimeras.blogspot.com/

 

Marcela Ortolan

http://www.metamorfosepensante.blogger.com.br/

Patti Pitombo

http://pattricia33.zip.net/

poema de Setembro

 

a ramalhete

trouxe em si a escolha

de não viver o tempo suficiente

para dar frutos e morrer

 

não secou de velha

 

sangrou de corte

no auge da idade

com perfumes de uma flor

assim Janis Joplin

poema de Agosto

 

Se soubesse que aqui era isso,

ficaria por lá naquilo,

leite e lodo dos girinos,

 

na possibilidade do eterno ovo infecundo,

um sangue suga do farto alimento em berço esplêndido,

alien disforme de tão maravilhado espetáculo,

 

mas deu que - a sorte venceu - na corrida

com seus quatro membros

dois olhos

de insaciável boca,

e cá estou instrumento da procriação

sem rumo

vagindo parias sem pedir licenças.

 

Agora sou o dente quebrado da minha engrenagem, onde estou a carruagem do massacre não roda e o meu gosto trava a língua, trago uma mão carregada de dicionários, e nem tenho palavras que digam, qual é a dimensão desta oferta, fico só na mímica muda, véu de sombras assopradas pelo olho cego, um olhar que brilha amarelado de risos nas faces vazias de convexas, lábios entreabertos e sós, balbuciantes de êxtases estou, de saber-me incompleto na negação da oferta que os vultos passam e esquecem.

 

Mas...

Ao longo da vida juntei alguns caquinhos

nada que sirva para nada

foi só de birra mesmo

Borboleta

 

de

uma

asa

voa\voa

 

mancando em assíncronos espaços

 

desmedindo

o

tempo

dando

asas

ao

meu

ponto

de

vista

 

Quero estar sempre no relativo, não amarrar pés aos laços nem acima

nem abaixo da linha do equador.

Alimentar-me das incertezas e desta privilegiada órbita

não costurar morada aos pensamentos .

Em vãos esticar olhos às ilhas que povoam os litorais do fim do mundo.

testamento

 

não passei pela minha criança incólume

entre o sim e o não sempre fui o vão

fiz da cabeça o suporte radial da luz

dei asas ao luna park dos mistérios

busquei o dom dos hemisférios e o

meu samurai de golpe único cortou as palavras

antes que dobrassem a língua

e nunca houve incertezas

de encostar-me ao peito o queixo

trouxe na cabeça o elixir da imaginação

eterna e líquida possibilidade de um acender

só de balançar

corri atrás de um tempo que não existiu

em verdade vos digo

fui somente aquele que de mim desistiu

nunca fui em rotinas transmissível

operei por semelhanças ao beijo

e algo de agradável espalhou-se pela minha boca

fui a esfera azul da vaga lembrança

suspensa por milagres em espaços

equilibrada nas gravidades de hálitos vermelhos

deste sol

 

continua..

testamento

 

continuação

 

houve dias de flores brancas

enquanto outros se arrepiaram de gelos

houve um caminhar das luas

e uma tristeza assim de folhas secas ao chão

escorregando dias descalços em brasas

nas paralelepípedos nuas

tudo isso houve

mas a quinta estação

fui eu

macerando o tempo em pó

andarilho de místicos ecos

não sei a quem cheguei

mas quando eu

mensageiro do meu desejo imortal

se de ida e agora para sempre

esquecer-me deste quintal

deixo aqui a minha alma virgem

quarando na varanda do varal

ir-me

 

queria embarcar

no trem

do ir-me embora

 

em busca do destino

de não saber aonde

 

mas é de um cansaço

o gastar-me

em essas alegrias

 

e desistir por não saber

do talvez

ou

que houvesse

 

um descanso

de janelas

no balanço

fim da linha

 

não tenho mais planos

se é que havia um

a não ser

a representação cotidiana

desse absurdo

deu no que deu

no fundo não era meu

o fim da linha

de tanto que profundo comeu

 

enquanto não sabia, tudo bem

minha língua lambia o mundo

agora me diga

o que eu faço

com essa migalha de segundo

com a avestruz da minha cara escondida

com a náusea rota da derrota

com a perplexidade lógica estampada

na plenitude avassaladora dos insignificantes

 

tarde demais para recuar

o caminho não volta ao ponto da partida

o olho cego no afã da sabedoria

não mira placas de contramão

a esperança sempre foi alcançar

nesse escuro tatear

e decifrar a loucura

de cavalgar o medo

deu no que deu

o fundo falso não era meu

nada de compreensível

no fim da linha do eu

 

 

pererê

 

nunca cri

em sobrenaturais

nada pode estar

in natura sobre si

 

só em dias avessos

me pegam

com cara de siri

de boca na botija

 

lançando as peneiras

na caça duns sacis

 

trinatedois

 

em dias trinta e dois

assenta no balcão

do meu oitavo andar

o pássaro colorido

que traz na garganta

o peito estufado

das orquestras istambul

 

balanço a cabeça um triste não:

- estou imaginado para silêncios

 

peço ao arco-íris

que deságüe sua névoa incolor

em minha boca de baú xadrez

bebo essa sede

e deito-me nas folhas do milharal

em ondas de brisas

amarelo verde

 

em dias trinta e dois

sou milho

de pensamentos assim

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